segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Todos os caminhos levam aos ciganos – a história do movimento cigano no Brasil

A 30 de junho de 2018 realizou-se este evento – título supracitado – às 17 horas no Estúdio Denise Tenório – rua Áurea, 75 – Santa Teresa/RJ – a quem agradeço. Quando escolhi este tema para minha palestra, estava certa de que havia chegado o momento ideal de fazer uma reflexão sobre os 32 anos do movimento cigano no país. Nesta narrativa, não me detive na origem, história, organização social, língua, arte, religiosidade, ofícios da etnia cigana, como, sempre sob vários ângulos, faço. Tampouco na relação milenar entre ciganos e não ciganos.

Resolvi estabelecer uma Linha do Tempo desde a criação do Centro de Estudos Ciganos do Brasil (RJ), a 18 de maio de 1987, até os dias de hoje. Independentemente dos lapsos ou das distorções da internet (em verdade, dos internautas), existe a realidade dos fatos, cronologicamente determinada, comprovada por quem vivenciou. Mesmo que não fosse eu a autora do livro Povo cigano, lançado a 21 de maio de 1986, no Paço Imperial (RJ) a fazer este relato, teria que se dizer o que vem a seguir em relação à fundação do CEC, a primeira organização pró-etnia cigana da América Latina: com o lançamento do meu livro de estreia, muitos ciganos se encontraram, se reencontraram e outros se conheceram, naquele dia, no Paço Imperial. O público que acorreu ao evento, fato confirmado pelo então diretor do espaço, o saudoso Suetônio Valença, que, aliás, colaborou imensamente para o sucesso do evento, foi um dos maiores que o local havia recebido até então.

Tais ciganos a que me referi eram dr. Oswaldo Macedo, médico, grupo calon, que se tornaria presidente de honra do CEC; Mio Vacite, xoraxanó, músico, presidente; Antonio Guerreiro de Faria, kalderash, professor universitário, vice-presidente; o saudoso Cândido da Silva Pires, calon, dentista. Havia, também, os representantes das famílias ciganas Marcovitch, Ristich, e ciganos e ciganas do grupo calon do Catumbi. Vale destacar a colaboração preciosa de Ático Vilas-Boas da Motta, etnólogo, historiador, escritor, folclorista, membro do Études Tsiganes (Paris), que eu conhecera durante minhas pesquisas no estado de Goiás, como professor da Universidade Federal de Goiânia, e foi meu grande amigo até 2016, quando faleceu. Em 1987, ele foi apresentado por mim aos ciganos do CEC, porque nos estados das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sul do país ele já era bastante conhecido dos ciganos. Outra colaboração inicial que o CEC teve: o padre italiano Renato Rosso, que viera ao Brasil fundar a Pastoral dos Nômades do Brasil. Os dois foram membros fundadores do CEC.

Foi um êxito o lançamento de Povo cigano – tevês, jornais e revistas cobriram o evento, houve a participação musical de ciganos, na dança e nas canções, à frente do grupo musical liderado por Mio Vacite, pela primeira vez se apresentando em show daquele porte para o público brasileiro. Percebendo a enorme receptividade das pessoas, um grupo de ciganos, já referido por mim, resolveu amadurecer a ideia de criar uma associação cigana no país, uma vez que tal movimento já existia na Europa desde a década de 1970. Ficou claro que, devido ao total desconhecimento sobre a etnia cigana no país, gerando preconceito e discriminação, e à escassez de livros publicados sobre o tema (um no século XIX e dois no início do século XX), o principal objetivo da associação seria divulgar, informar, esclarecer os não ciganos e reconhecer e inserir a etnia cigana na sociedade brasileira.

Um mês antes de o CEC ser fundado, a Fundação Casa de Rui Barbosa e o Ministério da Cultura propuseram que preparássemos um evento sobre cultura cigana para acontecer nesse importante espaço cultural carioca. Um representante da Casa de Rui Barbosa fora ao lançamento de meu livro no Paço Imperial e, desde então, se estabeleceu o contato. Então, de 22 a 26 de abril de 1987, houve a Iª Semana de Cultura Cigana da América Latina, onde exerci a função de diretora de produção, com lançamento de livro, conferências, exibição de fotografias e objetos referentes à cultura cigana, música e dança. Todos os membros do CEC escolheram temas e fizeram palestras e a participação do público nos debates foi intensa. Este momento ímpar e precursor da história contemporânea do povo cigano no Brasil está reportado em meu mais recente livro Histórias de flamenco e outras cenas ciganas (Rio, Ed. Tinta Negra, 2014) que, além de descrever o evento e sua programação, apresenta opiniões dos ciganos que participaram do mesmo, com depoimentos, também, do prof. Ático e do padre Renato. À época, reportei o evento para a Revista de Cultura, ano 81, set./out. 1987, nº 5, Ed. Vozes.

A partir daí seguiram-se: Noite Cigana (1988 – Espaço Cultural Sérgio Porto); Iª Mostra de Cultura Cigana (três dias de programação, em 1990, no Centro Cultural Banco do Brasil); Arte Cigana no Museu da Imagem e do Som (MIS), 1992. Realização de Seminários e Congressos na UFRJ, Uerj (que se repetiram, décadas depois), UFF, Unirio, USP; em bibliotecas e centros culturais do Rio e de várias capitais do Brasil, onde eu ia lançar livros (São Paulo, Vitória, Salvador, Belo Horizonte, Brasília, Recife), além do Museu da República, Planetário da Gávea, Paço Imperial (novamente), Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Bienal do Livro (Riocentro).

Então, publicara meu segundo livro, Os ciganos continuam na estrada (1989, Ribroarte) e, posteriormente, Lendas e histórias ciganas (1990, Imago, duas edições), ambas com muitas fotos, frutos de viagens pelo país.

Voltando um pouco no tempo, em 1987 estive, a convite do kalderash Jorge Bernal, lançando Povo cigano no Centro Cultural San Martin (Buenos Aires), quando foi fundada a associação cigana Pueblo Gitano. Infelizmente, tal associação não foi à frente e, somente em 2000, Jorge Bernal cria outra entidade chamada Identidade Cultural.

Em 1990, Mio Vacite resolve fundar sua própria organização, União Cigana do Brasil, existente até hoje. Célia Maria Pinheiro da Costa continua secretariando e fazendo as atas; eu continuo secretária e, a pedido do dr. Oswaldo, continuo coordenando eventos culturais pelo Brasil afora ou participando deles, quando era convidada, representando o CEC. Antonio Guerreiro continua sendo o vice-presidente. A cigana do grupo calon, a cartomante Esmeralda Liechochi, torna-se diretora cultural. E veio se juntar a nós uma colaboração preciosíssima: o cigano do grupo calon nômade Marcos Rodrigues. Deste eu já ouvira falar como sendo representante da União Romani Internacional, na América Latina, desde o 2º Encontro desta instituição, no início dos anos 1970, presidido pelo rom Ian Cibula, na Suíça. Marcos se correspondia com Cibula sobre a situação dos ciganos no Brasil. Com a chegada ao CEC, de Marcos Rodrigues, que se tornou presidente do CEC, muito saudada pelo dr. Oswaldo e por todos nós, houve um aprimoramento do CEC, porque ele foi o primeiro cigano nômade a participar da instituição. Já nesse período, em nome do CEC, eu troquei muitas cartas esclarecedoras com o calon espanhol Antonio Martinez Amador, advogado, presidente do Secretariado Gitano de Ubeda e membro da URI, que colaborou com depoimentos  para meus livros e colheu depoimentos meus para seus trabalhos. Nesse sentido, também, correspondi-me, sempre em nome do CEC, com as pesquisadoras Nelly Salinas (Uruguai), que esteve no país, e Elisa Lopes da Costa (Portugal) e colaboraram com entrevistas para meus livros. Eu, então, já escrevera vários artigos para a revista Études Tziganes (Paris), à frente, Evelyne Pommerat, e Lacio Drom (Roma), do Centro Studi Zingari, à frente Mirella Karpati e um trabalho meu, “Situação social contemporânea dos ciganos no Brasil”, representou o país num Congresso italiano. Eles recebiam notícias e livros do CEC e, certa vez, o autor de Mil anos na história dos ciganos (François de Vaux de Foletier) escreveu um artigo sobre meus livros e publicou em Études Tsiganes (oct. nov. déc. 1986 - Paris - France). O cigano argentino Jorge Bernal, a convite do CEC, veio ao Brasil duas vezes, encontrando-se com os ciganos, e esteve com dr. Oswaldo Macedo e todos nós na ECO-92.

Em 1991, dei consultoria para a novela da TV Globo Pedra sobre Pedra de Aguinaldo Silva, que foi ao ar em 1992 e, neste ano, prof. Ático e eu, a convite do Departamento de História da USP, demos conferências no evento América 92 – Raízes e trajetórias. Também, em 1992, pela Imago, lanço o primeiro livro infantojuvenil sobre ciganos, no país, Ainda é tempo de sonhos e sucedem-se encontros com alunos e professores nas escolas e muitos esclarecimentos sobre o tema.

Em 1992, é lançado no MIS o 1º livro escrito por um cigano no Brasil: Ciganos: natureza e cultura, de Oswaldo Macedo (Imago). Antonio Guerreiro, Marcos Rodrigues e eu participamos deste belíssimo momento. Marcos Rodrigues participa de muitos encontros em universidades, na PNB e em centros culturais.

Eu sempre dissera: “A ciganologia só adquire sua plenitude como ciência quando os ciganos escrevem sua própria história.” E isto aconteceu no Brasil, afinal, pois na Europa e nos Estados Unidos já acontecera desde o final dos anos 1970.

Em 1990, surge o Centro de Tradição Cigana/SP, presidido pelo kalderash circense Zurka Sbano, assessorado pela psicóloga Valéria Sanchez. Eles se inspiraram no CEC e fui à fundação do mesmo, representando o CEC, e levando uma belíssima carta do dr. Oswaldo para seu Zurka. O CTC durou poucos anos, até o falecimento de seu Zurka. Em 1993, com o repentino falecimento do dr. Oswaldo, encerram-se as atividades do CEC. Além do belo livro, há muitas contribuições dele em meus livros e registros fotográficos, até os livros mais recentes, com homenagens e tributos a ele com seus poemas, paramiches e reflexões. Perdi, também, um grande amigo e, até hoje, comunico-me, por telefone, com Emerenciana (Emê) Macedo por telefone, sua viúva, que sempre prestigiou lançamentos de meus livros, mesmo após o falecimento do marido. (D. Emê faleceu, aos 100 anos, em julho de 2018.)

Transcrevo dois trechos dele, publicados em Histórias de flamenco e outras cenas ciganas, que bem refletem sobre a atuação do CEC e sobre a liderança dos ciganos:

“A publicação de livros sobre ciganos é um tesouro para nós, ciganos, porque os escritos vêm documentar, notificar, esclarecer, elucidar. Também, encantar. No Brasil, muito devemos a Mello Morais Filho, João Dornas Filho e Oliveira China, no passado, que colocaram a nossa gesta nas bibliotecas de alguns estudiosos e aficcionados do assunto. No presente, agradecemos aos livros de Cristina da Costa Pereira que, juntamente com a criação do CEC, fizeram com que não figurássemos tão somente nas páginas policiais, aos nos colocarem, principalmente, nos cadernos culturais dos jornais do país.”

“Em referência às organizações ciganas e seus presidentes e diretores, estes não se arvoram a representar a etnia cigana como um todo. Afinal, os grupos têm, no núcleo de cada família, a sua própria autoridade e representatividade.”

Neste meu livro, de 2014, o Prefácio é feito por Antonio Guerreiro de Faria, o que muito enriqueceu a obra. E, na 2ª edição de Povo cigano (1987), Antonio Guerreiro fez o prefácio cujas linhas finais dizem:

“Há, neste livro, um pouco de todos nós e, por isto mesmo, ele também nos pertence, pois foi graças a ele que se fez ouvir, além de nossas canções, a nossa voz... Com gratidão, Antonio Guerreiro de Faria (rom). 21 de maio de 1987.”

Com o encerramento do CEC e a enorme perda do amigo dr. Oswaldo Macedo, muito me aconselhei com o prof. Ático, que me desafiou: “Mas você pretende ser só uma escritora de um único tema, ciganos?” Em resposta, lancei o livro de poesia sobre o bairro de Santa Teresa, onde então eu morava: Revisitando o bairro de Santa Teresa... e outros caminhos (1ª ed.: 1998; 2ª ed.: 1999, Ed. Luziletras). Seguiram-se mais dois livros de poesia pela mesma editora e, em 1998, lancei A inspiração espiritual na criação artística (Lachâtre), Finalista do Prêmio Jabuti, 2000, hoje (2016) em sua 4ª edição pelo Lar de Frei Luiz. Em 2003, lancei Povos de rua (Luziletras), um ensaio sobre as ruas da Lapa, Santa Teresa (RJ) e Pelourinho (Salvador), que me rendeu o prêmio da União Brasileira de Escritores-RJ, 2006, de Mérito Cultural. E comecei a coordenar em Santa Teresa e, posteriormente, Laranjeiras, saraus de poesia, música, teatro etc. E me apresentava por saraus da cidade do Rio de Janeiro como escritora, poetisa e palestrante. Como eu fizera letras na UFRJ e dei aulas de português-literatura, nesse período meu público leitor se ampliou.

Em 1999, Esmeralda Liechocki lança seu livro Ciganos: a realidade (Ed. Heresis) e me deu a honra de escrever a orelha do livro. O lançamento foi no Paço Imperial com a apresentação da bailarina Denise Tenório. Poucos anos depois, Esmeralda faleceu.

Durante esse período de saraus, contei com colaborações preciosas: o prof. Gilson Nazareth e o músico Eduardo Camenietzki e o Centro Cultural Laurinda Santos Lobo foi palco de muitos eventos que coordenei. Estava sempre em contato com Marcos Rodrigues, que não mora no Rio, e com Antonio Guerreiro.

Como a Linha do Tempo é contínua e dialética, a convite da saudosa editora da Rocco Vivian Wyler, que me entrevistara em 1986 para o Jornal do Brasil sobre meu livro de estreia (coluna “Estante”), escrevo Os ciganos ainda estão na estrada (Rocco), lançado a 2009 na Livraria Argumento e retomo contato com Mio Vacite para a apresentação musical (cf. p. 183 de Histórias de flamenco e outras cenas ciganas sobre importante resenha que saiu sobre o livro, numa entrevista que dei a O Estado de São Paulo – Caderno D – Antropologia/estudo, jornalista Francisco Quinteiro Pires, 3/6/2009), sob o título “Uma nação que vive sem destino”). Foi bom ter aceito o desafio do prof. Ático, escrito sobre outros temas, pois tudo isso contribuiu, sem dúvida, para o convite de Vivian Wyler.

Lanço, no Laurinda, o livro Poemas com destino certo, 2012, de cunho humanista e espiritualista e amigos ciganos vão prestigiar com música, ainda que o livro não seja de temática cigana. O livro tem Posfácio de meu filho, o escritor e estudante de teologia, Pedro da Costa Pereira. Também o lanço no Lar de Frei Luiz.

Em 2011, no Museu da República, lanço Qualquer chão leva ao céu – a história do menino e do cigano (Escrita Fina Edições), novamente com a presença de amigos do tempo do CEC e o público que consolidei durante meus tempos de coordenadora de saraus. O livro foi adotado em muitas escolas do país.

Eventos no Estúdio Denise Tenório e Instituto Cervantes (à frente o bibliotecário Carlos della Paschoa) sobre temática cigana e de outros livros de minha autoria acontecem com a participação do excelente músico e compositor calon Rodrigo Araújo, de Reuter Durdevic, Antonio Guerreiro e Marcos Rodrigues. Também, nesse período, em parceria com a então diretora do Laurinda (Santa Teresa) Nadia Medella escrevo Memórias do Laurinda. Pelos eventos do Laurinda que coordenei passaram artistas como Amir Haddad, Nelson Xavier, entre inúmeros outros.

Voltando um pouco no tempo, em 2012, a convite de Antonio Guerreiro, a ideia foi dele, publicamos um artigo a quatro mãos: “Fausse identité gitane: un cas brésilien”, na revista Études Tsiganes, nº 51, Ed. FNASAT, que teve, em 2013, uma publicação do original em português no Brasil, com a generosa e corajosa oferta do bailarino, coreógrafo e figurinista Ricardo Samel (a tradução encontra-se disponível em seu blog: flamencoymoda.blogspot.com). Digo corajosa oferta porque o tema abordado no artigo é complexo e polêmico. Conheci Ricardo Samel em 1987, numa festa de temática cigana no Clube Lagoinha e fui reencontrá-lo somente em 2012, no Estúdio Denise Tenório e, a partir daí, nossa amizade se consolidou.

Conheci, em 2013, uma violinista e compositora maravilhosa, Carol Panesi, através de quem cheguei ao grupo musical Roda Romani Trio, que se apresentou em vários eventos comigo, e de brilhante carreira por todo o país.

Em 29/5/2015, a convite da AMSK e do Ministério da Educação, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, estive em Brasília, como escritora, já que não sou cigana e a única associação cigana a que pertenci encerrou suas atividades em 1993. E sempre ressaltei que não desejava e não desejo participar de mais nenhuma associação cigana. Há um texto que intitulei “Celebração ao Dia Nacional dos Ciganos” em que reporto detalhadamente este encontro. Desde 2006, foi criado a 24/5, o Dia Nacional do Cigano e começaram a se reunir em Brasília várias associações ciganas do Brasil. Como este meu texto foi amplamente divulgado, não cabe repeti-lo aqui. Apenas destaco, agora, que nesta única vez em que estive lá, quando me foi dada a palavra, solicitei o seguinte:

● necessidade de se inserir não só nos livros de ciganologia, como já ocorre, mas nos livros de História do Brasil, a participação da etnia cigana na formação da nação brasileira e a influência da cultura cigana (arte e religiosidade) no Brasil.

● indicação em programas do governo de livros paradidáticos de temática cigana às instituições públicas de ensino.

Nada disso foi feito até hoje, e muito pouco do que foi estabelecido no Documento que me chegou às mãos, de 2014, do GT-Cigano. Apenas constato isso, não estou aqui para julgar, até porque sei como é difícil, no Brasil, se pôr em prática belas teorias. Além do mais, a questão cigana, em todos os níveis e por todos os motivos, é bastante complexa. Lá, em Brasília, sem dúvida fui muito bem recebida e doei às instituições governamentais e a alguns líderes ciganos meus livros mais recentes. Reitero: por não ser cigana e não ser de nenhuma associação cigana não vejo motivo para voltar lá. Há muita gente participando do grupo e um enorme trabalho a ser feito.

Em 2014, na Livraria Cultura (RJ), lancei o já citado Histórias de flamenco e outras cenas ciganas, com participação artística de Denise Tenório, Leshjae & Kumpania, Roda Romani Trio, Mio Vacite e Eduardo Camenietzki. Em 2015, a convite de Valéria Sanchez, lancei-o com palestra em São Paulo. O lançamento do Rio gerou a entrevista na coluna de O Globo, “Conte algo que não sei”, dezembro de 2014. Cf. neste blog: “Seu vizinho pode ser um cigano”. Marcos Rodrigues e Antonio Guerreiro sempre prestigiando os lançamentos. Marcos Rodrigues, em 2012, me honrará com as palavras (cf. Histórias de flamenco...) “Esta fala é uma homenagem do povo kalom ao seu carinho e à sua dedicação à cultura cigana. Você que não se importou com o preconceito e a discriminação dos não ciganos, sendo você mesma uma não cigana, tornou-se uma das mais respeitadas pesquisadoras do povo cigano, trazendo ao público seu trabalho através dos muitos livros já escritos e os muitos que irá publicar. Posso imaginar como foi dura a sua trajetória até aqui, mas valeu a sua determinação. Até agora, tudo sério e acreditável com relação aos ciganos, partiu de você, e não podemos esquecer disso. Você nos tirou do anonimato e nos colocou em evidência.”

Mio já falara, em agosto de 1989, sobre este início do movimento, à jornalista Rose Esquenazi (O Dia) e o amigo Ático, em entrevista a um jornal de Salvador, produziu um belo texto, que muito me honrou e está reproduzido na quarta capa de Histórias de flamenco.

Tenho, com a publicação de livros e com palestras e conferências, procurado elucidar alguns pontos e, destes inúmeros assuntos, destaco dois:

1º) No livro Povo cigano (1986), há o capítulo “Os ciganos e os artistas” com um texto introdutório em que explico que poetas, escritores, teatrólogos, cineastas, compositores, do Brasil e do exterior, ao longo dos tempos, se inspiraram na temática cigana para produzir sua arte. Infelizmente, a partir do início dos anos 1990, vários artistas que citei eram referidos na internet como ciganos, o que não é verdade. Por isso, retomei este tema, em 2009, no livro Os ciganos ainda estão na estrada, em cuja orelha do livro o professor e escritor André Valente explicita bem essa questão.

2º) A primeira vez em que se publicou algo sobre Estatuto dos Ciganos, no país, foi no livro Povo cigano em entrevista a mim concedida pelo prof. Ático Vilas-Boas da Mota, que ora transcrevo, pois até hoje isso não se resolveu, e o que se chama hoje Estatuto dos Ciganos é muito criticado pelos ciganos, por estudiosos, e gera controvérsias, inúmeras discussões e críticas severas. “Pergunta: Qual a participação dos ciganos no Estatuto dos Ciganos? Resposta: Os ciganos com quem conversei acharam boa a ideia, mas somente naqueles três pontos colocados no Estatuto. A vantagem desse Estatuto é que com ele, um instrumento legal, o cigano ficaria menos vulnerável, não precisaria, por exemplo, de depender tanto dos delegados de polícia, o que os prejudica bastante. Agora, há também uma resistência por parte dos ciganos ao Estatuto, porque este passaria a enquadrá-los mais e o cigano não suporta nada que o enquadre. O cigano considera o Estatuto uma arma de dois gumes. De qualquer maneira, sabe o que um cigano me falou sobre o assunto? – Com ou sem Estatuto, o cigano sabe se defender.”

E eu acrescento uma nota explicativa no mesmo livro: “O Estatuto dos Ciganos é uma proposta do professor Ático Vilas-Boas da Mota, que já fez campanha pelos jornais e junto a órgãos internacionais, visando à sua elaboração que se deveria basear em três pontos principais: 1) direito de estacionamento em todas as comunidades brasileiras (os nômades teriam, então, o direito de acampar, evitando, assim, os conflitos que há entre eles e as autoridades municipais); 2) direito à assistência médica, inclusive a todas as campanhas de vacinação; 3) a alfabetização em romani e em português. O ensino de romani seria no sentido de preservação de sua cultura através da língua dos ciganos. O sistema escolar que o professor Ático propõe é o da escola sazonal, já que está se tratando de uma parte dos ciganos, que é nômade.”

Retomando a Linha do Tempo, de 23 a 25 de maio de 2016, o calon, professor de biblioteconomia e diretor de departamento, Eduardo Alentejo, me convida para fazer parte de um evento criado por ele na Unirio: “Influência da Cultura Cigana na Formação Social Brasileira e a Necessária inclusão de seus valores na Educação, Bibliotecas e Centros de Cultura”. O título de minha palestra foi “A invisibilidade da etnia cigana: estereótipos e discriminação”. Marcos Rodrigues falou sobre “Os calons nômades brasileiros” e houve participação de Mio Vacite a convite de Alentejo. O prof. Eduardo Alentejo coordenou o Fórum e muitas bibliotecárias, além de seus alunos, abordaram o tema sob vários ângulos. O prof. Ático ditou-me pelo telefone um texto valorizando o evento, que li antes de minha fala. A 23/3/2016 falecia o querido Ático Vilas-Boas da Mota. Tanto o texto dele quanto o que fiz registrando seu falecimento encontram-se em meu blog. Dos inúmeros livros escritos pelo prof. Ático, sobre diversos temas, no campo da ciganologia destaco Ciganos: Antologia de ensaios (2004) e Poemas em trânsito (2008). Este pesquisador é um homem que, sobretudo os ciganos brasileiros, não podem esquecer, pelas inúmeras atuações positivas em prol da etnia cigana.

Desde 2014, o Grupo Nômade, à frente, os atores Ana Cristina Freitas e Jonas di Paula, já me haviam conectado para que eu lhes desse consultoria sobre uma peça que eles iam criar sobre ciganos – teatro de rua. Algo sobre este processo encontra-se descrito neste blog, inclusive o teor e a motivação da peça. Conheci-os em São Paulo e depois no Rio. Afinal, a 19/5/2018, estreou em São José dos Campos, A caravana dos pássaros errantes, baseada num massacre de ciganos em 1913, na cidade de Esperantina (Piauí). Estão viajando com a peça pelo estado de São Paulo e, no 2º semestre deste ano, pretendem vir ao Rio se apresentar. É, por todos os motivos, um trabalho heroico o destes atores.

A 5 de abril de 2018, ocorreu o “I Seminário de Cultura e Identidade Romá do Sul Fluminense”, UFF, em Volta Redonda, criado e coordenado pela romi Alessandra Tubbs. Fui convidada a participar, não pude comparecer, mas já fui convidada para o IIº e, certamente, estarei lá. Por todas as conversas que tive com a professora de biologia e dançarina Alessandra Tubbs, todas as correspondências trocadas, a parabenizo, e a seu marido Fábio Tubbs pelas conquistas firmes, determinadas e conscientes que o grupo já conseguiu. A seriedade dos propósitos e objetivos, o caráter ético e bem estruturado do trabalho me encantaram e animaram.

Todo este empenho e trabalho levaram à criação de Cepecro e é com a maior alegria que lhes trago, hoje, neste evento, a surpresa prometida: o vice-presidente da organização, o meu querido amigo Marcos Rodrigues, que lançará um livro – o primeiro de um calon nômade brasileiro, cujo texto de Apresentação fiz com muita honra – e o também representante do Conselho Fiscal da organização, o amigo Ricardo Samel, e, cada um com sua linguagem e com seu estilo farão suas palestras e darão as boas-novas de Cepecro, pela primeira vez anunciada na cidade do Rio de Janeiro, abrilhantando o evento. Alessandra Tubbs é a presidente da organização e Fábio Tubbs o secretário. Sobre a composição da diretoria e objetivos da organização falarão Marcos Rodrigues e Ricardo Samel, seus representantes, hoje, aqui conosco, e que têm conhecimento de causa.

Deixo-lhes um belo poema de Fábio Tubbs:

Vocês sabem quem eu sou?
Sou aquela pessoa que veio de muito longe
Sou aquele povo estanho lá do Oriente
Sou quem restou

Meus irmãos se espalharam pelo mundo
Nossa dor veio junto
Pra onde quer que vamos
Nos olham de canto de olho
Nos olham como imundos

Perseguiram nossa arte
Perseguiram nossa própria magia
Implicam até com nossas roupas
Suspeitam de nossa alegria

Nós também tivemos holocausto
Também tivemos nossa senzala
Mas nosso silêncio é tão alto
Que dessa lágrima ninguém fala

Se então nos encontrar na rua
Não precisa ir pro outro lado
Nosso teto é céu, sol e lua
Já somos um povo ignorado

Somos como corpo eterno
E apesar de tantos desenganos
Temos o coração fraterno.
Somos o povo cigano.

Concluindo esta minha explanação, digo-lhes que tenho, por vezes, a impressão de que fiz uma viagem ao mundo dos ciganos, Amaro Them. Sim, há diferenças entre romá (ciganos) e gadjé (não ciganos), os termos distintos já ressaltando isso.

Mas, com o olhar de alma antiga, vivida, que deixo aflorar, hoje, passados alguns anos desde o início deste movimento cigano em nosso país, posso afirmar que, embora haja diferenças culturais entre ciganos e não ciganos, as parecenças são mais palpáveis, saltam aos olhos. Sobretudo no campo das emoções e dos sentimentos.

Após as nossas narrativas, todos documentadas, gravadas e reportadas por mim, Ricardo Samel em seu blog e no site da Cepreco, a que todos terão acesso, houve apresentação musical da bailarina Denise Tenório, dos músicos Rodrigo Araújo e Marcelo Palermo e a participação de Camila Vieira. A dança das alunas da prof. Vivian Alves. A forja de ligas metálicas, com o cigano Diogo Emiliano.

Este evento também foi notificado a 30/6/2018 em O Globo, Revista Zona Sul, coluna “Parada Obrigatória” de Christovam de Chevalier.

*

Ao longo de todos esse anos, sempre que solicitada, procuro atender a estudantes de universidades de todo o país, concedendo relatos e respondendo a perguntas para suas teses, monografias e vídeos, e sempre, obviamente, examinando a seriedade das pesquisas. Também colaboro com jornalistas, usando o mesmo critério, para cenas episódicas em filmes e séries de tevê. E indico os nomes dos ciganos, que colaboram com maestria para todos esses trabalhos.
 
                                          
Cristina da Costa Pereira



















Foto: Ilan Epelbomi

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