segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Palestra de Marcos Rodrigues

Em nome do povo cigano, quero agradecer à Cristina da Costa Pereira, mulher, amiga, lutadora, que não deixou o preconceito se tornar impedimento de vir até aos ciganos, em seus acampamentos ou em suas moradias como pesquisadora e escritora. Destas visitas saiu um belo trabalho, livros foram escritos sobre nossa cultura, dando oportunidade aos não ciganos de conhecer a nossa real situação.
Éramos evitados, para ser claro, marginalizados pela sociedade deste país, mas esta mulher, com sua coragem, enfrentou tudo e todos que a impediam e nos colocou em evidência. Vivíamos como um barco à deriva na correnteza e ela se tornou nossa âncora, não deixando que fôssemos levados para o abismo do fim; nosso povo, hoje, desfruta de liberdade, tanto que muitos que antes nos odiaram, hoje admiram-nos ao ponto de quererem ser um de nós. Neste momento crítico que este país – o Brasil – está passando, nós também, os ciganos, estamos passando, com os judas vendilhões de nossa etnia, impondo suas lideranças com a ajuda de pessoas inescrupulosas, mal-intencionadas, gananciosas. Digo, o líder já nasce líder e suavemente exerce sua liderança; não usa força e nem recruta mercenários para engrossar suas fileiras.

Nossa etnia merece respeito, afinal somos gente igual a todas as gentes. E também posso dizer que todo este mal não vai nos fazer parar de lutar e nem vamos deixar de ser ciganos. Nascemos ciganos e fomos criados em acampamentos ou em moradias ou casas. Somos ciganos, um povo milenar, de muitos milênios, e conseguimos chegar até hoje, século 21. Encaramos toda sorte de perseguições praticadas contra nós, pelos nossos irmãos não ciganos; primeiro, expulsos de nossa terra de origem; fomos escravos, prisioneiros e até fomos levados a campos de concentração para sermos exterminados, sem contar com outros tipos de torturas a que fomos submetidos. Mas, graças a Deus, estamos ainda na Terra.

Quero dizer que em 1987 foi criado o Centro de Estudos Ciganos do Brasil, uma organização que veio para divulgar a cultura cigana neste país. Em 1993 encerrou suas atividades por motivo da morte do nosso querido e saudoso presidente de honra dr. Oswaldo Macedo, que Deus o guarde no céu junto com seus amigos. Nesta entidade também tive a honra de ser presidente.

No ano de 2018, na cidade de Volta Redonda, aconteceu o 1º Seminário de Cultura Romá, no sul do estado – a 5 de abril, no auditório da UFF (Campus de V.R.) – organizado pela romi Alessandra Tubbs e com a participação de um grupo de palestrantes ciganos e não ciganos e, dias depois, em conversa com estes amigos, diante dos acontecimentos, resolvemos tomar uma decisão unânime: criar o Centro de Pesquisa da Cultura Romá do Brasil, Cepreco, cuja diretoria é a seguinte: Alessandra Tubbs (presidente), Marcos Rodrigues (vice-presidente), Fábio Tubbs (secretário), Ricardo Samel (tesoureiro).

O nosso objetivo é representar a etnia cigana junto às autoridades governamentais, buscando com as mesmas a criação e execução de políticas públicas voltadas também ao benefício de nosso povo. E com isso encerro a minha fala e agradeço a presença de todos e à Denise Tenório, que nos recebeu em seu espaço cultural.

Marcos Rodrigues*


*Palestra feita por Marcos Rodrigues no Estúdio Denise Tenório no evento: “Todos os caminhos levam aos ciganos – a história do movimento cigano no Brasil.”

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