quinta-feira, 7 de maio de 2015

Artigo "CAMINHANDO COM OS CIGANOS", de Cristina da Costa Pereira, publicado no jornal "Prana" de maio de 2015, 219ª edição

CAMINHANDO COM OS CIGANOS

A publicação de livros sobre ciganos é um tesouro para nós, porque os escritos vêm documentar, noticiar, esclarecer, elucidar. Também, encantar. No presente, agradecemos aos livros de Cristina da Costa Pereira, desde 1986, que juntamente com a criação do Centro de Estudos Ciganos do Brasil (RJ, 1987), fizeram com que não figurássemos tão somente nas páginas policiais, ao nos colocarem, principalmente, nos cadernos culturais dos jornais do país (Oswaldo Macedo, in PEREIRA, Cristina da Costa. Histórias de flamenco e outras cenas ciganas. Rio de Janeiro, Tinta Negra, 2014).


No Brasil, segundo dados da Unesco, há mais de 500.000 ciganos, e a maioria dos brasileiros desconhece tal etnia, ou a conhece, somente, por meio de estereótipos. O importante, então, é dar voz a esta minoria excluída e não apenas apontá-los, dizendo: “Aqueles são os ciganos; assim são eles”, mas contextualizá-los dentro das complexas relações sociais de dominação que os vêm afetando, ao longo da sua trajetória milenar em diversas partes do mundo: diáspora na Índia, Inquisição, escravidão na Romênia, degredo de Portugal/chegada ao Brasil, perseguições por meio de leis, alvarás e éditos do século 15 ao século 19, guerra civil espanhola, Segunda Guerra Mundial (nos campos de concentração nazistas foram exterminados cerca de meio milhão de ciganos), sua condição no século 21, de extrema marginalização, sobretudo no Leste Europeu, e de vítimas de xenofobia em vários países da Europa. Além disso, a atitude muito comum, por parte dos não ciganos, de tachar os ciganos como um povo místico e detentor de tradições ocultas, ou seja, considerar o sobrenatural, é mais cômoda. Tocar na realidade é o que dói.
Ciganos são uma etnia e não têm religião própria, mas adaptam-se às ideias religiosas, fundindo-as com crenças comuns a muitos povos. Em relação ao Brasil, nos 30 anos de convívio com este povo, conheci ciganos católicos, espíritas, umbandistas e evangélicos. Devel (Deus) é a maior referência em sua religiosidade, bem como Jesus Cristo. Logo, à diferença dos judeus, que são uma etnia e têm uma religião própria – e qualquer pessoa pode se converter à religião judaica –, no que concerne aos ciganos, isso é impossível de acontecer.
Pela proximidade do dia 24 de maio – dia de Santa Sara, também comemorado em Camargue (sul da França) a 25 de maio – e, por isso, por decreto presidencial, desde 2006, instituído como Dia Nacional do Cigano, no Brasil, falarei agora sobre Santa Sara. Mas ressalto que o espaço é exíguo para tratar de assunto tão polêmico, e que gera inúmeras controvérsias entre os estudiosos e, sobretudo, entre os ciganos. Resumidamente, então, darei algumas informações a seguir.
A referência a Santa Sara, nos livros de hagiografia do mundo ocidental, remete ao século 13, e há narrativas diversas, e até discrepantes, sobre a origem do culto à Santa Sara pelos ciganos.

Sara é reconhecida como a padroeira dos ciganos somente entre um grupo de ciganos, os gitans, e não é reconhecida pelos outros grupos (rom, manouche e sinti). A peregrinação existente em Saintes-Maries-de-la Mer (Camargue) [desde 1936, para alguns, e para outros, depois da Segunda Guerra Mundial] não é frequentada por todos os grupos citados, que não manifestam veneração a ela como o fazem os gitans (...). No 1º Congresso Internacional do Povo Rom, que ocorreu em 1971 (Londres), um grande pôster foi amplamente divulgado mostrando a procissão com Santa Sara, em Camargue, e uma legenda explicativa: “A estátua de Sara está sendo carregada sobre os ombros dos ciganos. Santa Sara, a grande protetora dos ciganos, representa a forma cristianizada da deusa hindu Kali, deusa do Destino e da Fortuna,  que tem sido cultuada pelos ciganos, depois de os primeiros deles terem deixado sua pátria de origem, no norte da Índia, no ano 1000.” Para marcar o fim das festividades do Congresso, a estátua de Santa Sara é conduzida numa grande procissão ao fim da qual foi submergida num tanque de água, à semelhança das festas de outubro de Durga, da Índia. Sara Kali pode evocar, neste sentido, a deusa indiana Kali Durga, ainda que a hierarquia católica romana tente preservar a peregrinação de Saintes-Maries-de la Mer na comunhão oficial da cristandade. (in BLANCHET, Régis. Un peuple – mémoire les Roms, Ed. du Prieuré, s.d.).  

Há ciganos, bastante conhecedores de sua tradição, que afirmam que a única realidade, neste sentido, é Sinti Sara, crença originada na Índia e que propiciou o sincretismo. Já o escritor cigano Franz de Ville, em seu livro Tziganes, Bruxelas, 1956, afirma:

Sara, a Kali, era cigana e foi um dos primeiros membros do nosso povo a receber a Revelação. Ela liderava sua tribo, que vivia nas cercanias do Rhône [rio Ródano] e conhecia inúmeros segredos transmitidos pelos antepassados. Um dia, Sara teve uma visão que a informa de que as mulheres presentes à morte de Jesus iriam chegar e que ela deveria ajudá-las. E Sara as vê chegar em sua embarcação. O mar estava agitado e o barco ameaçava naufragar. Maria Salomé joga seu manto sobre as ondas e Sara, utilizando-o como uma jangada, vai até Maria Jacobé e Maria Salomé e as ajuda a chegar à terra firme por meio de uma oração. 

Esta antiga narrativa, com inúmeras variantes e o adendo de que “Sara era a companheira egípcia das Três Marias (Maria, mãe de S. Tiago o Menor, Maria de Salomé, mãe de S. João Evangelista e S. Tiago o Maior, e Maria Madalena, acompanhadas de José de Arimateia e Lázaro), é reproduzida por D. Estevão Bettencourt O.S.B, no artigo “Os Ciganos e a Religião” em Ciganos – antologia de ensaios, org. Ático Vilas-Boas da Mota, Brasília, Thesaurus, 2004. D Estevão acrescenta:

Em comemoração do episódio (cuja autenticidade não interessa discutir aqui), os cristãos ergueram, na mencionada ilha (Camargue), uma grandiosa igreja onde estão guardadas as relíquias de Santa Sara, que os ciganos cristãos veneram como sua padroeira, e para lá acorrem a 25 de maio, de várias partes do mundo (França, Alemanha, Áustria, Itália, Espanha, e até do Marrocos), podendo o número de peregrinos chegar a um total de 5.000.

Muitos estudiosos do tema, de várias partes do mundo, dizem que “Sara não é cigana, mas os ciganos a fizeram sua.” E outros acrescentam: “Os ciganos, em verdade, vivenciam o acontecimento como uma auspiciosa fonte de negócios, de intenso comércio.”
O fato é que, hoje, no Brasil, em centros de umbanda e em inúmeros grupos esotéricos, Sara é cultuada como a Santa dos Ciganos. No entanto, grande parte dos ciganos brasileiros não reconhece Sara como sua padroeira e, sim, N. S. Aparecida. No Nordeste do Brasil, Padre Cícero é bastante festejado pelos ciganos. E N. S. Santana, a Velha (como a chamam muitos ciganos), também é bastante homenageada, no Brasil, a partir da época colonial: “N. S. da Glória/Tem grande merecimento/Mas a Senhora Sant’Ana/Trago mais no  pensamento” (quadra de louvação presente nos bródios dos ciganos calons sedentários do Rio de Janeiro, registrada por Melo Morais Filho, na sua obra precursora, Cancioneiro dos ciganos – poesia popular dos ciganos da Cidade Nova. RJ, Ed. Garnier, 1885).
Concluindo, transcrevo as palavras, de 23 de abril de 2015, que me foram ditas, exclusivamente para este artigo, pelo mais renomado ciganólogo do Brasil, Ático Vilas-Boas da Mota:

Sara é uma santa, como tantos outros santos do panteão cristão, que pertence ao ciclo das navegações, e como a documentação referente a isso é escassa, aceita-se tanto a tradição ligada ao ciclo marítimo como a que pressupõe uma origem muito mais antiga, que a torna mais próxima da Índia. Embora haja também a possibilidade de um sincretismo mediante o uso da personagem bíblica semítica Sara.

Cristina da Costa Pereira, escritora e professora de literatura, com 13 livros publicados, sendo 7 referentes à etnia cigana. 

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